E quando a morte quase pega carona no seu avião?

Gisela Rao

Quando eu era pequena tinha uma mania que trago até os dias de hoje: a de guardar coisas caso eu ficasse perdida em alguma floresta ou sabe-se lá Deus onde. Eu nunca viajei de avião quando era pequena, mas isso não me impedia de estocar na mochila o “Manual do Escoteiro Mirim”, biscoito Mirabel e um treco que meu pai usava para passar no rosto quando se cortava fazendo a barba.

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Hoje em dia, quando viajo de avião, levo na bolsa uma lanterna, um bagulhinho de fazer fogo por atrito, uma bússola, um mini canivete que passa no Raio X e um ursinho de pelúcia velho e encardido, que considero meu talismã desde a infância e que faria o papel de “bola Wilson”, caso eu ficasse em alguma ilha deserta. Mentira! O urso não é meu talismã, é meu objeto transicional (segundo um amigo psicólogo) que deveria ter ficado na minha infância, caso ela tivesse sido como deveria, mas que acabou viajando pelo túnel do tempo e até hoje me dá uma espécie de segurança psicológica. 

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Semana passada eu estava em um voo diurno, voltando de uma reunião no México, e ouvimos um estrondo no avião. O mesmo barulho que faz uma lâmpada de poste quando estoura. O pessoal do fundão também teve o “privilégio” de ver uma bola de fogo na lataria da aeronave. Eu acho que nem Einstein conseguiria pensar em alguma fórmula para tentar entender a quantidade de pensamentos que se passaram pela minha cabeça em tão pouco espaço de tempo, pelo menos até descobrir what a hell foi aquilo. O primeiro deles foi lamentar que o urso encardido estivesse na mala no bagageiro e não comigo. Depois, os pensamentos racionas e emocionais começaram a se atracar, então pensei que não deveria ter dado a bússola de presente para o meu diretor no México (simbolizando o Norte de um projeto que estamos tocando), pensei no que tinha de comida em estoque na minha bolsa, no meu seguro de vida para pagar o crediário do banco que eu deixaria, em como faria SOS para o resgate ver, em como não conseguiria ligar para o meu marido porque o celular não pega etc etc. Cheguei à conclusão de que não existe momento mais verdadeiro do que a morte passando por perto e dando um selinho, e que cada um tem suas reações. Na hora, também lembrei da minha amiga Ana Tereza saindo do bunker – depois que o tornado levou sua casa embora – procurando o sutiã por entre os escombros do que se agarrou para não ir embora :/ 

Depois de 10 minutos de avalanche “pensamentiva”, de ver as aeromoças correndo e de muita gente olhando para fora das janelas, descobriu-se que um raio havia atingido o avião (tipo esse aí nessa foto), mas que nada acontecera porque não pegou nem no motor nem na turbina.

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E agora eu posso dizer que aquela sensação de nascer de novo, de ter tido mais uma chance nessa living la vida loca, de gratidão, não é lenda urbana, é real e espero que dure mais que a bola de fogo que se desmanchou – com sua insustentável leveza do ser – no ar.

Até mais!

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A partir de hoje, o Blog volta a ser escrito semanalmente :  )

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Sobre a autora

Gisela Rao é publicitária, escritora e está jornalista. Acredita piamente que a "imperfeição" liberta. A palavra está entre aspas porque, como dizia Buda, o que é certo e o que é errado no universo da ilusão? Leia mais

Sobre o blog

Espaço pra quem cansou de esconder a barriga com a almofada da sofá, de pedir pro amigo dar um tapa naquelas rugas da foto do perfil no Face, de usar salto alto em casamento e voltar cheia de esparadrapo para casa, de transar no escuro com vergonha do corpo e de se chamar de Free Willy quando se olha no espelho.

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