Minha Vida Sem Photoshop

Fui bloqueada no Face por excesso de compaixão

Gisela Rao

Já perdi mãe, pai, duas avós e duas gatas que eram da família, então sei reconhecer nos olhos do outro a tristeza, a dor e a sensação de desamparo destroçante de quem fica. Não sou petista (já fui!) e voto em branco há algumas eleições, mas não pude deixar de me comover com o olhar tão triste do Lula no velório de Dona Marisa. Postei sobre isso e vários “amigos”, um até das antigas, me bloquearam no face por não aceitar que eu sinta pena do ex-presidente. Tentei explicar que minha compaixão era pela dor, independente de quem fosse e de que partido fosse. Não adiantou. Segundo fontes, o amigo das antigas ainda publicou o seguinte troféu: “Limei mais uma com pena do Lula!”

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Não sei dizer se a gente nasce com compaixão ou se herda. Só sei que venho de uma família onde a solidariedade é diária e tão comum quanto colocar manteiga na torrada, no café da manhã. Minha mãe morreu ajudando os outros e, talvez por isso, a fila de visitação no hospital, quando ela ficava doente, dobrasse quarteirões.

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Exatamente em que momento a compaixão virou um sentimento lixo? Temos algumas pistas no texto do publicitário Jarbas Agnelli:

“A verdade sobre as redes sociais é:

seres humanos não foram feitos para se comunicar tanto.

Nunca na história tivemos esse nível insano de interação: uns entrando nos cérebros dos outros, em tempo real.

É claro que ia dar merda. Somos imperfeitos, egotistas, invejosos, ciumentos, mal resolvidos, cheios de buracos existenciais, traumas e recalques.

Até alguns anos atrás, quem sabia escrever se comunicava por carta. Além da cerimônia, havia o tempo. Uma resposta demorava dias, senão semanas. Havia tempo para pensar. Pensar enquanto lia. Pensar na resposta. Pensar antes de escrever.

Era quase como a comunicação ao vivo.

Ao vivo as pessoas sempre foram comedidas com estranhos, como são até hoje. Você não expõe seus medos, suas revoltas, em contatos triviais, a não ser em casos extremos.

Até que apareceu a internet.

A rede social introduziu o atalho direto ao Id. A comunicação despida de ritual ou educação. Impulsiva, quase subconsciente, com um mínimo de reflexão.

Garotos tímidos de 16 anos se tornaram haters de 3 metros de altura online. Senhoras recatadas viraram troladoras impiedosas. Pessoas que mal sabem raciocinar, quando muito expor suas ideias de forma ordenada, subitamente tinham opinião sobre tudo, e espaço onde vomitá-las. O mundo virtual virou um ringue de vale-tudo”.

Na minha opinião, a rede apenas revela as sombras que sempre escondemos. Portanto, a rede é quem somos. O mestre do meu ex-professor de Kenjutsu só confiava em quem bebesse junto com ele, porque era nesse momento que as máscaras caíam.

Na boa, sigo pela vida compassiva e solidária, deixando pelo chão migalhas de pão e ex-amigos que preferem tomar seus porres diários de ódio, eternamente culpando os outros pelo seu tupperware de infelicidades.

“Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás” – Che Guevara

Até a semana que vem!

giselarao@gmail.com
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Sobre a autora

Gisela Rao é publicitária, escritora e está jornalista. Acredita piamente que a "imperfeição" liberta. A palavra está entre aspas porque, como dizia Buda, o que é certo e o que é errado no universo da ilusão? Leia mais

Sobre o blog

Espaço para - como dizia Nelson Rodrigues: mostrar a vida como ela é, sem pintar pombo de verde e chamar de meu louro.

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