A vida é curta demais para arrependimentos

Gisela Rao

Semana passada, eu respondi à convocação da Cruz Vermelha para ir ao Centro distribuir cobertores e alimentos às pessoas em situação de rua. Eu quase amarelei porque eu fico hospedada em São Paulo num bairro longe pra diabos do Centro. Mas eu fui porque sabia que me arrependeria se não fosse, como me arrependi de um abraço que não dei no Marrocos, na viagem humanitária com o Patch Adams. Nós estávamos em frente a um hospital, em Casablanca, onde levaríamos alegria para as crianças. Mas, antes de entrar, vimos uma moça de uns 30 anos chorando muito por causa da morte da mãe. Eu queria muito, mas muito mesmo ir lá abraçá-la e chorar junto com ela porque conheço bem essa dor. Mas, eu me segurei porque um dia ouvi que os palhaços não podem chorar junto com as pessoas. Depois me disseram que não é bem assim. Quase sempre me lembro desse abraço que não dei e prometi que  não vou mais dar essas amareladas porque a vida é curta demais pra arrependimentos.

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Sexta-feira, colocando a mão na massa – no Centro – junto com a Cruz Vermelha, descobri uma coisa muito importante: todo o medo desaparece quando nos tornamos um com as pessoas que nos apavoram. Em certo momento, à noite, fui cercada por uns 15 meninos moradores de rua – desses que a gente nem chega perto com medo de assalto. Eles apenas queriam os alimentos que estávamos distribuindo. Naquele momento, éramos um só, os mesmos, iguais em tudo, e foi uma das experiências de maior amor e mais ricas da minha vida. Se eu tivesse ficado no conforto tolo de casa, assistindo “Velho Chico”, ou sei lá o que, não teria recebido a benção da velhinha que ganhou dois cobertores, nem teria acompanhado a menininha – junto com a Camila Cardoso – até o bar pra pegar água quente para a sopa da sua mãe, nem teria conhecido a generosidade do português do boteco, e nem teria perdido meus preconceitos e meus medos pelo caminho, e muito menos teria sentido o carinho do nóia pegando alimento pra levar até a mina dele, e nem teria dado um perto na mão calejada do senhorzinho negro, nem teria conversado com o refugiado de Guiné, e nem teria sentido a tristeza de ver como as crianças da rua já se parecem com adultos no olhar e no sofrimento.

By Harry Borges

By Harry Borges

Foi uma noite doída, mas é uma dor que cura. Ela cura as marcas de dedos deixadas na cara da nossa alma pelos tapas do nosso individualismo.

Até breve!

“Repare que por todos os lados existem plaquinhas de apelo ao abraço grátis. Mas falta anúncio no poste de “trago o abraço perdido em 3 dias ou seu dinheiro de volta”. Escambo todos que já abracei por aquele que deveria ter enlaçado. Eu não sei onde foi parar o acolhimento que eu não pude dar. Talvez no fundo da gaveta dos apegos nunca dados. Onde guardamos a piada sem a graça, o sorriso não correspondido, e o silêncio de cada “eu te amo”. Será mesmo que gastei toda minha cota de abraçamento e não me dei conta? Só sei que meu saldo de abraço agora é negativo. Estou com doença de membros molengas por falta de fusão e aderência. Fico na espera do alinhamento do coração que bate junto com outro e toca a batida em resposta. Tão arrochado ao ponto de ficar com a coloração roxa por falta de ar. Sigo fazendo desuso das mãos vazias e desconcertantes. Situação que se a gente fosse pão se esmigalhava todinho. E dando um adeus sem graça e mais nada além do abraço que não dei”.

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Texto: Ramone Loyola

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BLOG VAE INDICA

O livro “Achados e Perdidos – uma viagem na América”, do Rafael Vazquez. Uma super pausa no estresse da vida louca. Um romance que conta a história de João Ninguém, um jovem que viaja pelo mundo para viver experiências intensas! Sim, exatamante o que você e eu gostaríamos de fazer :  ) Não perca!

“A base são as coisas que eu mesmo tive a oportunidade de ver, descobrir e vivenciar durante os anos em que me joguei no mundo. Mas a obra possui a liberdade criativa necessária para que o livro não seja uma biografia, e sim uma oportunidade de o leitor se entreter e até mesmo se reconhecer nos diversos personagens. Depois das experiências que tive e conclusões que cheguei, considerei importante que o livro fosse muito maior do que eu. Os personagens têm vida própria”, explica Vazquez.

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Sobre a autora

Gisela Rao é publicitária, escritora e está jornalista. Acredita piamente que a "imperfeição" liberta. A palavra está entre aspas porque, como dizia Buda, o que é certo e o que é errado no universo da ilusão? Leia mais

Sobre o blog

Espaço pra quem cansou de esconder a barriga com a almofada da sofá, de pedir pro amigo dar um tapa naquelas rugas da foto do perfil no Face, de usar salto alto em casamento e voltar cheia de esparadrapo para casa, de transar no escuro com vergonha do corpo e de se chamar de Free Willy quando se olha no espelho.

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