Minha Vida Sem Photoshop

"Temos que enterrar nossos mortos"

Gisela Rao

Que solidão tremenda é essa que chega chegando e nos joga na água gelada quando perdemos alguém que importa?

Quando minha mãe se foi, tive a sensação de estar à deriva em um barquinho sem vela e num mar sem farol e estrelas. Quando meu pai se foi, nesse fim de semana, tive a sensação de que nem o barco eu tinha dessa vez. É uma solidão nossa e de mais ninguém, e não adianta o amor dos amigos, do marido, dos animais, do urso de pelúcia encardido que eu agarrava quando via filme de terror na infância.

Minha grande dor não foi a perda, foi ver o sofrimento de um velhinho que nunca se cuidou e que a vida veio cobrar tudo de uma vez no final. Foi ver a o desamparo da minha irmã mais velha, a cabeça baixa do meu sobrinho no enterro, o choro sincero da minha prima, a voz aveludada da minha irmã H. quando tentava tranquilizá-lo nos momentos finais, a dor do outro neto – tão impotente – do outro lado, no Canadá.

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Nesses dias finais me reaproximei mais fisicamente dele, um oásis no deserto de uma relação cheia de tempestades de areia. Ousei ficar segurando a mão que nunca tive na infância, nem nunca em tempo algum, nem muito menos no meu casamento com B.L. – que ele disse que não iria porque sabia que não ia durar. Tive um segundo de medo pensando que ele pudesse rejeitar esse contato. Insegurança da criança que acha que veio ao mundo para incomodar.

Agarrada à mão dele quase no fim, me despedi com  lágrimas mudas. Como a vida não deixa barato, estava tocando no celular da minha irmã a música “Cold Water” – de Damien Rice. Coincidentemente foi a música que sempre ouvi após as perdas do que chamamos de grandes amores.

“Fria, fria água que me rodeia agora

E tudo o que tenho é sua mão

Senhor, você pode me ouvir agora?

Senhor, você pode me ouvir agora?

Senhor, você pode me ouvir agora?

Ou eu estou perdido?”

Nesse momento – e mesmo ele sendo ateu – rezei para Deus pegar na sua mão e acompanhá-lo, junto com minha mãe Clarice. E depois fugi, como sempre fujo. Como fugi do último suspiro da avó, como fugi do último suspiro da mãe. Mas esses últimos suspiros sempre me alcançam e arrancam um choro quente como a lava de um vulcão, que desmancha de uma só vez o nó de fogo entalado na minha garganta.

Cheguei cedo no velório com meu marido, chegamos antes de todos. Não convidamos ninguém de fora porque esse cansaço era nosso e de mais ninguém. Meu tio chegou às 4 am, contando coisas da personalidade forte dele, dos carros chiques que amava. É legal quando alguém fala da pessoa no passado, contando coisas de um pai que nem sei se conheci direito.

Chamei o Uber às 5 am. Medo de olhar em um rosto tão familiar ao meu quando me vejo no espelho. Minha irmã mais velha perguntou se eu iria no enterro – “não sei” – respondi. Ela disse: “Temos que enterrar nosso mortos”. Fui embora sem virar pra trás, sem o ver pela última vez, cambaleando de sono e de pedaços de emoções que não davam nem uma colcha de retalhos. No dia seguinte fui ao enterro. O corpo descendo ao lado da minha mãezinha. Nada foi dito. Senti falta de um padre, um rabino, um xamã que cortasse com a pá das palavras aquele silêncio tão doído. Mas minha ex-cunhada gritou agradecendo os queijos suiços que ele comprava, os bons momentos na casa de Campos do Jordão, as coisas engraçadas que ele falava…

E foi assim que ao pó ele voltou e que senti inveja do luto judaico, onde a família fica toda junta. Vi meu irmão, irmãs e sobrinhos indo embora em dois carros. E eu fui ficando para trás e para trás e para trás, em uma manhã de sol, túmulos e tanta grama e dor esparramadas.

E é aqui que encerro minhas palavras, junto à frase roubada da cova de alguém que um dia se chamou Ernesta:

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Até semana que vem.

giselarao@uol.com.br

Sobre a autora

Gisela Rao é publicitária, escritora e está jornalista. Acredita piamente que a "imperfeição" liberta. A palavra está entre aspas porque, como dizia Buda, o que é certo e o que é errado no universo da ilusão? Leia mais

Sobre o blog

Espaço para - como dizia Nelson Rodrigues: mostrar a vida como ela é, sem pintar pombo de verde e chamar de meu louro.

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Por que trocar a lâmpada ficou mais interessante que nós?

Nos últimos meses, que coincidem com o tempo que não tenho viajado, tenho a estranha sensação de não ter assunto-próprio. Não estou falando do monte de filmes que assisto no Netflix, ou dos assuntos que saem na home do UOL ou do Tiscali.it. Estou falando de assunto próprio, coisas incríveis que vejo ou sinto e que ficam se acotovelando para escorregar no tobogã da garganta para fora. O triste é que percebo que não é só comigo: às vezes vou em almoços ou jantares coletivos onde ninguém tem também assunto-próprio, digo, algo mais interessante do que trocar uma lâmpada quebrada. Assistindo a uma palestra do incrível tarólogo Arhan (sim, nesse dia fui atrás de assunto-próprio!), ele disse uma coisa muito assustadora: "Cada vez menos vejo a carta do "Louco" no jogo de tarô das pessoas. É assustador porque o Louco é a carta ligada a seguir a intuição. Nas palavras do Arhan: "O Louco é o arcano sem número do tarô, está presente em todos os caminhos da nossa jornada pessoal. Ele representa o campo de todas as possibilidades em nossa vida é o momento do salto quântico existencial. Aquele que é capaz de gerar a si próprio. Esta carta não dá valor aos valores dos homens. "O Essencial será sempre invisível aos olhos". O que nos dará a certeza de uma direção segura, nosso norte, será o canal intuitivo, representado na carta por um cachorrinho que tenta avisar o louco do abismo a sua frente. Mas perante aos outros, qualquer atitude ou escolha, neste momento da sua vida, será considerada Louca! Por isso, não dê ouvidos! A caravana passa e os cães ladram...Misture a sua "maluquez" com a sua lucidez, seja livre e siga em frente! Ação a ser tomada: Rever valor para gerar a si próprio". Então tem um monte de coisas erradas aí, estamos com preguiça, estamos acomodados, estamos sem coragem pra alçar novos voos, pra fazer coisas novas, estamos vendo tv e internet demais. Não acho que as respostas estejam em viajar mais, embora ler o livro "Diários Marroquinos" (Kívia Mendonça) dê um tremendo frio na barriga (ela ficou um tempão no Marrocos viajando sozinhaaaaa de carona). Eu acho que a resposta está em viver mais, reloadar na gente aquela criança curiosa que eramos na infância. Onde está você, Giselinha, que furava o dedo sem medo para ver as células - tão lindas - psicodelicando na plaquinha de vidro no microscópio? "Se o homem persistisse em sua loucura, tornar-se-ia sábio" - William Blake +++++++++++++++++++++++++++++++ giselarao@gmail.com

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